Formando a personalidade da criança

Nos últimos meses, pudemos acompanhar inúmeros casos de maus-tratos e atitudes bárbaras contra crianças e adolescentes. Chocados com a brutalidade das histórias, esquecemos que a violência está presente no cotidiano de grande parte das famílias, até mesmo nasnossas próprias casas.

Formas mais sutis de violência, como o uso abusivo da palmada, a negligência ou o autoritarismo excessivo, continuam a ser modelos de educação adotados por muitos pais, mas podem gerar graves consequências.

Há mais de dez anos, pesquisadores vêm estudando a influência das práticas educativas na socialização e na agressividade de crianças e adolescentes. Com base nesses estudos, especialistas classificaram os estilos parentais (conjunto de atitudes de apoio, interação, disciplina, afeto e punições utilizadas pelos pais) em quatro tipos: o autoritário, o negligente, o permissivo e o participativo. Cada um deles apresenta consequências positivas e negativas para a personalidade da criança.

- Pais negligentes: são os ausentes, intolerantes, inconstantes. Podem ser ao mesmo tempo distantes e punitivos. Filhos desse tipo de pais têm mais riscos de desenvolver atrasos nos desenvolvimentos cognitivo e emocional, baixa auto-estima e comportamentos anti-sociais, assim como dificuldade nas habilidades sociais.

- Pais autoritários: geralmente mais impositivos e hostis às necessidades dos filhos. Baseiam a educação em regras e coerção e fornecem pouca atenção e afeto. Os filhos costumam ter dificuldades de socialização e podem apresentar maior agressividade, baixa auto-estima, ansiedade e depressão.

- Pais permissivos: extremamente afetivos, mas incapazes de impor os limites essenciais para o desenvolvimento da personalidade da criança. Estas apresentam maiores dificuldades em lidar com frustrações.

- Pais participativos: Fornecem suporte afetivo e também os limites e as regras necessários para o amadurecimento saudável. Atitudes de apoio, respeito, encorajamento e normas claras que ajudam a orientar e organizar a personalidade da criança constituem a base da educação. Filhos desse tipo de pais costumam demonstrar maior habilidade social, auto-estima e resiliência, características essenciais para o desenvolvimento saudável.

Não existe regra para educar, mas bom senso e equilíbrio emocional são essenciais.

Pesquisas desse tipo não têm como intenção estabelecer regras para mostrar como os pais devem ou não educar os filhos, mas servem para atentar sobre a complexidade do processo educativo, suas nuances e particularidades.

Impor limites, exercer a autoridade e aplicar castigos é importante para a formação da personalidade da criança, mas para isso não é preciso fazer uso da violência. A palmada, por exemplo, largamente utilizada pela maioria das famílias como forma de punir e ensinar, na realidade pouco contribui para a aprendizagem.

Bater pode solucionar o problema de imediato, mas não ensina a criança a resolver os conflitos. Ela acabará aprendendo que a violência e a força física são formas de resolver as dificuldades, uma péssima lição que levará para a vida toda, praticando-a em sua futuras relações.
Educar um filho é uma tarefa bastante complexa. É preciso se doar, negociar consigo mesmo, fazer concessões, refletir sobre a própria postura, valores e expectativas. Demanda equilíbrio emocional e a compreensão de que o filho não é um prolongamento de si mesmo e, sim, um ser humano que está aprendendo, que precisa de alguém para lhe ajudar a escolher o caminho, dar colo e segurança.

É um trabalho difícil, durante o qual podemos nos perder, exagerar, desistir. Crianças desafiam a autoridade, testam os limites da tolerância e da paciência. Faz parte do aprendizado. E também tocam nossos sentimentos mais hostis e agressivos, pois somos pais, mas também seres humanos.
Sem dúvida alguma, é muito mais fácil fazer uso da força que investir no diálogo e na dedicação. Prestar atenção ao outro exige tempo e disponibilidade afetiva, elementos que hoje parecem faltar em meio à correria e pressão do dia-a-dia.

Mas é preciso lembrar que ser pai é assumir a responsabilidade pelo pequeno ser que foi colocado no mundo, e que essa responsabilidade não se limita apenas ao seio da família: estende-se a toda a sociedade, pois é para ela que, no futuro, a criança vai direcionar tudo que aprendeu com seus pais.
 

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