Somente 100 anos depois do golpe republicano é que as elites dirigentes tiveram a coragem de aceitar um plebiscito para encontrar nele a legitimidade popular que a nossa coisa publica nunca teve. Sarney foi feliz quando disse que com Lula no poder concluia-se a nossa transição para a república.
Nas repúblicas e nas democracias elogia-se as qualidades do homem comum, pois prevalecem as noções de igualdade na capacidade de qualquer um do povo em cuidar dos negócios comuns. Qualquer um pode, só precisa ser maior de 18 anos e, a partir desta eleição, possuir ficha limpa.
O curioso é que, embora nossas leis afirmem com clareza estes princípios, parte de nossas elites econômicas e intelectuais recusam a aceitar e, até mesmo a acatá-las. A ridicularização e humilhação a que está sendo submetida o cidadão e artista Tirica, curiosamente pertencente ao Partido Republicano, é prova disso. Contraponto ao Tiririca, vejam o tratamento dado pela Folha de São Paulo à que intitularam "Patricinha de Barueri". Sem experiência em política, disposta a aprender - tal como Tirirca: "- eu não sei, mas vota em mim que te conto". Mas ela pode, tem origem...
Outra prova é o tratamento desqualificante que essa mesma parcela da sociedade, pequena porém ruidosa e raivosa, dá ao presidente Lula e ao seu partido.
Uma rápida leitura dos jornais, a forma simples pela qual procuram mostar uma relação entre um criminoso de Mauá e o comando do partido, ou a candidata do partido e até mesmo ao presidente da república, indica a necessidade, nada demócrática tampouco republicana, de fazer crer que um partido político, por suas origens sociais é, na verdade, uma quadrilha - vide a alusão à Ali Babá.
Quanto ao Lula fico pensando. é fato que em seu governo os pobres ganharam, mas o ricos também ganharam e muito. Então qual o motivo de tamanha aversão? Arrisco responder no campo da mitologia política. Lula é para a grande maioria do povo brasileiro, e para a república brasileira, aquilo que o povo e a república nunca tiveram: um herói que vencesse.
Todos os nossos heróis, aqueles que lutaram pelas causas populares, são heróis que perderam a batalha. Lutaram mas morreram. Zumbi, Tiradentes, lutaram e foram importantes, mas morreram. São heróis mártires.
Embora seja também fator de agregação, pois a existência do mártir, tão bem explorada no martirológio cristão e operário, dá a certeza da existência do anti-cristo, assim, reune as chamadas forças do bem. Mas, seguir o exemplo do mártir é sempre marchar na trilha da morte. E quem quer morrer?
Os heróis que vencem, estes levantam a moral de seu povo. Dá ao povo a certeza de que mudanças são possíveis. No futuro, temem as elites atuais, um cidadão poderá dizer ao outro: - façamos como fez o Lula. Não se acovardou: lutou no sindicato, criou um partido, transformou a história de nosso país. E Lula, nem é exatamente um herói operário. É o elogio ao homem comum. Qualquer um de nós pode. Viva a República. Viva Lula, viva Tiririca.
Dimas Antônio de Souza é professor de Ciência Política na Pucminas



