Nas várias definições que existem sobre foto jornalismo, uma é constante, qual seja, a de que uma fotografia é um recorte da realidade no tempo e no espaço de sua execução. A outra é a de que uma imagem pode falar mais do que mil palavras, embora muita das vezes há que se esclarecer que o retratado é apenas parte, e não o, todo da informação, sob pena de estar prestando um desserviço aos leitores. O Informativo "Prefeitura de Contagem Faz" de nº33, distribuído em agosto, traz um caderno especial afirmando que "Contagem tem o maior Programa de Saneamento e urbanização da História da Cidade". O folhetim seria ideal e satisfatório para centenas de moradores, se a realidade apresentada não fosse feito só com fotos, mas com explicações e mais dados do porque algumas daquelas obras ainda não foram concluídas.
Verdade
A foto da capa do caderno, por exemplo, apresenta só um pedaço da obra, na Avenida Retiro dos Imigrantes, que ainda apresenta vários problemas que não foram relatados. Foi feio um recorte da situação, com o fotógrafo deixando de fora do enquadramento, os restantes 1,87 km do Córrego Retiro, que atravessa toda a região central da Vargem das Flores. As lentes fotográficas se esqueceram de congelar e demonstrar que a intervenção não foi finalizada, apesar de ter recebido recursos do Programa de Aceleração e Crescimento - PAC Drenagens, do governo federal, no valor de R$30milhões.
Diante do fato, usando uma expressão popular, um morador que não quis se identificar, disse: "Filho feio não tem pai, por isso não colocaram a foto no jornal da parte feia do córrego, onde tem lixo e esgoto". Assim, como em diferentes pontos do bairro, alguns moradores da Avenida Retiro dos Imigrantes, no trecho onde não vai ser feita a canalização, consideram a obra do córrego, "o patinho feio" abandonado pela mãe, como no famoso conto infantil.
Na avenida, do número 300 em diante, pode ser visto que a promessa de revitalização total do córrego está ameaçada, pois está paralisada, o que desagradou profundamente o comerciante Márcio Gonçalves da Silva, 52 anos, que tem casa e uma pequena mercearia, no número 305, há 22 anos. "Isto daqui era nosso sonho. Ficamos felizes com o inicio das obras, mas tristes por saber que ela não será totalmente canalizada", disse Márcio. O comerciante explicou que uma comissão de moradores foi criada em busca de respostas sobre a situação da obra, que parou enfrente a porta de sua casa e que, no encontro com os engenheiros responsáveis da obra, foram informados que a revitalização não poderia ser feita no trecho, por se tratar de uma área de preservação ambiental.
"Eles disseram que é uma área de preservação, pois, aqui, tem várias nascentes. Mas, porque, então, o esgoto ainda cai no córrego, o mato continua alto, tem mau cheiro, os ratos e pernilongos não param de incomodar? Isso tudo foi colocado na reunião, que teve inclusive a presença do secretário de Obras", revelou Márcio.
Ainda, de acordo com ele, a reunião foi realizada no final de junho, e a resposta dos representantes da Prefeitura é sempre a mesma, que a obra vai ser terminada, as galerias serão limpas e uma passagem será feita para os moradores. Já quanto ao questionamento se o recurso de R$ 30 milhões do PAC já teria sido integralmente usado, foi colocado, pelos representantes do governo municipal, que a verba já teria sido consumida na obra.
"Foi pedido um prazo, por eles, para que os moradores esperassem até o dia 10 de agosto, para conversar com a prefeita sobre nossas reivindicações, para que encontrassem uma solução e explicação. Só que até agora quase um mês depois, as respostas ainda não chegaram, pelo menos para nós da Avenida Retiro dos Imigrantes", lamenta Márcio.
Obras inadequadasEm outros pontos do bairro, a instalação das galerias de águas pluviais ocorreu de forma prevista no projeto, mas apresentando problemas. O líder comunitário Lucas Cardoso diz que muitas delas já estão assoreadas, que pontos do córrego que precisam ser canalizados não serão feitos e a baixa altura da entrada e saída das galerias se torna complicador pelo volume de água que pode aumentar no período de chuva, devido à pavimentação das ruas na região.
"Por onde vai passar essa água toda, que virá com lixo, entulho, pneus, sofá, pés de bananeiras, madeiras e pedaços de manilhas, em um espaço de apenas 1,95 metros de altura por 2 metros de largura? Esse lixo vem porque também falta uma orientação à população e a limpeza do leito do córrego", afirma Cardoso.
Lucas sugere que o Legislativo Municipal, Ministério Público, Ministério das Cidades, Caixa Econômica e engenheiros do CREA/MG façam uma verificação da situação da obra do PAC em Nova Contagem. "Gostaria muito de ver estes profissionais aqui no bairro, para vistoriar o que foi feito e conversar com moradores sobre os efeitos negativos a que estão sujeitos", colocou Cardoso.
Medo das chuvasQuem concorda com o líder comunitário, é a dona de casa, Sandra Ermelinda de Jesus, que mora às margens do córrego Retiro, mais precisamente na Rua VL-26, aonde a canalização ainda não chegou e parece que não vai chegar. "Até agora não entendi o porquê a obra foi abandonada. Aí, a gente, que mora depois de onde tem a galeria, fica prejudicado e preocupado com as chuvas que virão no final do ano, pois a gente pode ser carregada junta com as águas", disse a amedrontada Sandra.
Quem, também, está sofrendo com a indefinição da obra é a moradora do Beco São Judas Tadeu, Maria Paulina de Oliveira, que tem a obra paralisada justamente em frente ao portão de sua casa. "Ficamos sem lugar para entrar, além do mau cheiro do esgoto que vem da galeria. Queremos uma solução, pois achamos que as obras iriam ter seguimento", cobra, indignada, ao verificar que na sua rua, a obra foi realizada apenas até alguns metros após a Área Integrada de Segurança Pública- AISP, onde funciona a Delegacia e a 38ª CIA de Polícia Militar.
A Prefeitura foi contactada para se posicionar sobre o caso, mas até o fechamento desta edição não obtivemos resposta da Prefeitura.
Recursos anunciados são diferentes do convênio
O programa de saneamento do Córrego do Retiro saiu do papel graças ao convênio da Prefeitura com o governo federal por meio do Programa de Aceleramento e Crescimento - PAC Drenagens. Na Avenida Retiro dos Imigrantes, tem uma placa indicando que a execução da obra é do convênio e que o valor é de R$16.584.412,37, para o Tratamento do Córrego Retiro e Urbanização do entorno.
Há, no entanto, a informação de que, do total dos R$ 30 milhões, R$ 12 milhões seriam destinados ao reassentamento das cerca de 220 famílias que moravam às margens do córrego, em situação de risco, como consta no Informativo "Prefeitura Faz" nº19, de novembro/dezembro 2009, em sua página 5.
Conta não fecha
Mas, em uma conta simples, o valor colocado na placa somado ao destinado às famílias, não bate com a quantia anunciada no convênio assinado pela prefeita Marília Campos e a presidenta da Caixa Econômica Federal, Maria Fernanda Ramos Coelho, no começo de novembro de 2009, para iniciar as obras de contenção do córrego Ferrugem e saneamento do córrego Retiro, com a liberação dos recursos sendo autorizada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro do mesmo ano.
Os dois convênios somam investimentos na ordem de R$ 200 milhões, sendo R$ 170 milhões para a obra do Ferrugem e R$ 30 milhões para o Córrego do Retiro. Só que, na somatória dos valores anunciados para fechar o valor de R$ 30 milhões dá uma diferença é de R$1.415.587,63. O Informativo "Prefeitura Faz", nº 03- março/abril de 2010 - Especial Região Vargem das Flores - traz que a contrapartida por parte da Prefeitura em relação aos investimentos na obra em Nova Contagem é de R$ 1,5 milhão.
Já o "Prefeitura Faz" nº22 - abril/2010 - na página 11, apresenta que a obra ficou avaliada em R$ 32 milhões, por meio do convênio com Governo Federal, dos quais cerca de R$ 2,8 milhões sairiam dos cofres da Prefeitura.



