No carnaval de 2009, o empresário mineiro Hélder Mendonça estava em Miami, com a mulher e os dois filhos. Mas, este ano, a folia foi bem diferente. Ele passou os quatro dias trabalhando até altas horas no planejamento estratégico da Forno de Minas, a indústria de pão-de-queijo que sua família conseguiu recomprar das mãos da multinacional americana General Mills no ano passado. "Não estou reclamando, estou adorando", conta ele. Aos 45 anos, Mendonça reconhece agora que estava muito novo para pendurar as chuteiras.
É normal ver empresários que já haviam se afastado do negócio voltarem à linha de frente da operação, principalmente, em tempos de crise. Mas o caso de Mendonça é mais raro. Dez anos depois de ter vendido a empresa por estimados R$ 80 milhões, ele recomprou a Forno de Minas com a motivação de transformá-la no mesmo sucesso de antes. Com a diferença que, agora, o desafio é maior. Ele recebeu uma fábrica fechada, sem funcionários e sem estoque, com uma marca sem o mesmo prestígio e com muito mais concorrentes que há dez anos. "É uma aposta grande e perigosa", reconhece Mendonça.
Para reposicionar a marca, os Mendonças vão investir R$ 13 milhões em 2010. O valor inclui reestruturação da fábrica e ações de marketing. A meta é chegar ao fim do ano com uma produção em torno de 1 mil toneladas mensais, acima do volume fabricado pela multinacional. Quando a família vendeu o negócio, em 1999, a indústria tinha uma produção duas vezes maior do que a da General Mills nos últimos tempos e empregava 600 funcionários. "A Forno de Minas que compramos não era mais a Forno de Minas que vendemos", diz Mendonça, que ainda guardava seu crachá de presidente da empresa numa gaveta. "Foi angustiante assistir ao declínio da marca."
A família acredita na força da Forno de Minas para vender outros itens, como pão-de-batata e folhados, mas acha que os americanos exageraram no portfólio. Quer reconcentrar a produção em poucos itens. Para o segundo semestre, o plano é lançar uma novidade que poderá ser uma das armas da Forno de Minas para recuperar o mercado: pão-de-queijo assado e congelado. Basta esquentar por poucos segundos e está pronto para comer. "Os tempos são outros", admite o empresário. Hoje, o pão-de-queijo concorre com produtos prontos para consumo. Outro plano que os mineiros querem retomar logo é o investimento no mercado externo. Eles estão convencidos de que o pão-de-queijo, embora inusitado, tem tudo para cair no gosto dos americanos.
A família não precisava correr esse risco. Com o dinheiro da venda, eles investiram no setor imobiliário, comprando participações minoritárias em sete shoppings - um negócio que vai muito bem. Como gestor de participações, Mendonça despachava de um escritório confortável na Savassi, zona sul de Belo Horizonte. E o expediente era para lá de flexível. Mas falou mais alto, diz ele, o amor à empresa que fundou com a mãe (dna. Dalva, a dona da receita), o irmão e um amigo.
Na véspera da divulgação do fechamento da fábrica da General Mills, Mendonça foi procurado pelo mesmo advogado que intermediou a venda dez anos antes. Foi mais um gesto de cortesia para com a família que praticamente inventou a indústria do pão-de-queijo congelado no País. Eles não queriam que a família fosse informada pelos jornais. Mas o sonho de recomprar a fábrica começou ali.
Mais do que a decisão de vender algum ativo (venderam o Itaú Plaza e um centro de galpões industriais, ambos em Contagem) para recomprar a Forno de Minas, o que esteve em pauta nas reuniões da família foi exatamente a mudança de estilo de vida depois de uma década de calmaria.
D. Dalva, que andava assando pãezinhos só no forno de casa para os netos, reassumiu o controle de qualidade da fábrica. Confere pessoalmente a qualidade dos ingredientes que estão sendo adicionados à massa. Percorrendo a linha de produção em Contagem, Mendonça e seus sócios garantem que a "trabalheira" é mais do que gratificante. Passar a vida só administrando rendimentos não era lá muito estimulante para eles.
estadao.com.Br - Ivana Moreira
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