A morte lenta de um patrimônio cultural

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Aos poucos, a Casa de Cacos está se transformando, literalmente, em um amontoado de cacos"A arquitetura chamada 'espontânea' geralmente oferece soluções surpreendentes, fora dos padrões tradicionais e com materiais pouco convencionais". A frase foi retirada do artigo do professor em artes visuais pela Universidade do Estado de São Paulo - UNESP e crítico de arte, Oscar D'Ambrosio, postado no site www.artcanal.com.br.

Um exemplo dessa linha de expressão artística pode ser conferida em Contagem. É o caso da casa revestida por cacos de vidros e louças, localizada na Rua Inêz Glauzman de Almeida, 132, no bairro Bernardo Monteiro. Conhecida como a 'Casa de Cacos de Louça', esse patrimônio histórico da cidade, bem tombado em 2000, está em todos as divulgações oficiais da cidade, quando se trata de Educação, Cultura e Turismo. No entanto, desde 2005 o espaço está abandonado, fechado e preste a se acabar.

Novela
A Casa se encontra na mira do delimitador da morte que é o tempo: um senhor que não se curva a emoções e sentimentos, seja de um 'espaço' ou 'ser'. E faz desaparecer qualquer marca e beleza. Os efeitos do tempo, a Casa de Cacos já sente na pele, ou melhor, nas paredes, com os cacos se soltando, peças quebradas, estrutura comprometida e falta de limpeza. Tudo isso, por causa da não revitalização e manutenção do local, para combater o fim anunciado e angustiante de uma obra de arte a céu aberto, que é referência mundial.  

A recuperação do local é esperada e reivindicada pela população de Contagem, que acompanha a situação do Patrimônio como cenas de uma novela, à espera de um final feliz. Porém, até o momento os capítulos não são nada animadores, ficando mais para cenas do filme "À espera de um milagre".

Os mais de 27 anos de trabalho até que a casa ficasse toda coberta por cacos, veio perdendo fôlego desde o falecimento de seu idealizador, o geólogo Carlos Luiz de Almeida, em 1989. Assim, a Casa passou a ter um futuro incerto, apesar de tombada pelo Decreto Lei 10445 em 14 de abril de 2000, quase uma década depois da Prefeitura ter adquirido o imóvel da família Almeida na década de 1990.

E devido à estrutura comprometida da construção e o risco de acidentes, o espaço foi fechado para visitações em 2005. De lá, para cá, o único capítulo que, aumentou as expectativas do público, foi exibido no dia 15 de janeiro de 2010. Data em que a prefeita Marília Campos, acompanhada do diretor da Agência Metropolitana, José Osvaldo Lasmar e do renomado artista plástico e professor José Alberto Nemer, visitou o local com a intenção de somar esforços para  levantar os recursos necessários para sua restauração.

Contudo, foi apenas mais um capítulo sem desfecho agradável, pois as negociações não avançaram e desarticulou a possibilidade da Casa de Cacos ser incluída no circuito cultural internacional da Região Metropolitana de Belo Horizonte, para a Copa de 2014, ao lado da Igrejinha de Nossa Senhora do Ó, em Sabará, o Museu Contemporâneo de Inhotim, em Brumadinho e os já conhecidos pontos turísticos da capital mineira.

Desinteresse
Ao que tudo indica, a atual Administração parece não enxergar o potencial turístico da Casa e, com isto, não busca acelerar o processo de sua restauração para incluir a Casa no roteiro de visitação no período da Copa, sendo que Belo Horizonte, será uma das sedes da competição e fica apenas a 19 km de Contagem.
Afinal, se os esforços para a recuperação fossem maiores, certamente que a Casa de Cacos  já teria passado por um processo de restauração para as comemorações do centenário da cidade. Mas o Patrimônio Histórico da cidade passou totalmente desapercebido durante os festejos do aniversário de um século de existência legal do município.

José Márcio se diz orgulhoso em ter ajudado a construir a Casa, e lamenta seu abandonoPopulação lamenta
Pelo que se percebe, o tombamento da Casa de Cacos não trouxe, até agora, qualquer benefício em direção ao resgate, conservação, recuperação, identificação do espaço e memória do autor da obra.  Desta forma, a decadência da Casa é sentida por quem acompanhou de perto sua construção, como o profissional em lubrificação de autos, José Márcio Pinheiro da Rocha, 39, que é vizinho da Casa de Cacos.

Residente no nº 137, desde quando a rua era conhecida como Rua dos Cacos, em alusão à obra, José Márcio, lembra, com muita emoção dos tempos de adolescência. "Eu tive a felicidade de ajudar o senhor Carlos a construir muita coisa nesta Casa. Inclusive, o famoso elefante de azulejos chamado "Fifi", que respondia as perguntas das crianças, um segredo que só eu e poucos sabíamos como a voz do elefante era produzida; e as crianças ficavam fascinadas. Para mim, que tive a oportunidade de ver o Chacrinha de perto, graças à Casa de Cacos, e ajudar o senhor Carlos a colocar cacos nas paredes, ver este abandono é de partir o coração, é morrer junto com a obra", disse José.

Ronaldo lembra que um ponto turístico como a Casa de Cacos, tem que ser melhor cuidadoDa mesma forma, o aposentado Ronaldo Alves Lima, 58, há mais de 30 anos também é morador da rua que ganhou o nome da mãe de Carlos e se encontra o 'mal' sinalizado ponto turístico de Contagem, considera que a cidade deveria prezar mais seus pontos turísticos, que certamente contribui para a preservação da história local. "Afinal, um ponto turístico faz parte dos registros da vida social da cidade e precisam ser observados e bem cuidados. Contagem precisa valorizar mais seu lado turístico, que é pouco explorado", arrematou Ronaldo.

Uma Casa de muitas histórias

Carlos e a esposa na residência que no início era apenas um refúgio da família nos feriados, finais de semana e fériasDe acordo com os registros da Casa de Cacos, a residência que se tornou símbolo da cidade, na década de 1960 servia, apenas, como um ambiente para descanso de Carlos Luiz e a família, que moravam em Belo Horizonte. O fascínio por cobrir a casa com pedaços de cacos começou após pequena reforma no banheiro do imóvel, em setembro de 1963. Carlos estava com pouco mais de 50 anos e queria ocupar o tempo com esta obra, mas ele não pretendia fazer nada comum, gostaria de movimento nas paredes. Foi então que começou a emendar pedaços de azulejos velhos, que ganhavam formas em desenhos.
Das paredes para os utensílios do banheiro, como pia, chuveiro, sabonete e outros objetos. Como o material utilizado no banheiro sobrou, ele, decidiu fazer outra parede e depois outra, até que, um dia a decisão mais ousada  foi tomada, cobrir toda a casa com pedaços de porcelana. A família reagiu de imediato, acreditando que ele estava louco, mas acabou se convencendo com as ideias do patriarca. "Se o poeta junta palavras para fazer sua poesia, porque não juntar os meus cacos para fazer a casa dos meus sonhos", justificava Carlos, à época.

Êxtase e agonia
Além da obra inusitada, o interessante, é como o geólogo/artista adquiria as porcelanas. Os registros contam que todo o dia, ao sair de casa, no bairro Carlos Prates, para o trabalho, Carlos passava no Café Nice, na Praça Sete, em Belo Horizonte e, após saborear o tradicional café forte, discretamente deixava a xícara cair no chão. Então, pedia, além das desculpas, para que o garçom o deixasse levar os cacos para casa. O que chamava a atenção dos frequentadores e funcionários do Nice, é a frequência com que as quedas ocorriam com a mesma pessoa.

Carlos também recebeu a contribuição de vizinhos, personalidades, políticos e até da esposa de um presidente da República, Lucy Geisel, mulher do ex-presidente brasileiro Ernesto Geisel, que comandou o país entre 1974 a 1979. O presente da primeira-dama pode ser visto em uma das paredes externas da casa, que é praticamente coberta por xícaras, que vieram especialmente de Brasília para compor a obra de Carlos. No total são 832 xícaras colocadas, ao lado do elefante "Fifi", de forma a impressionar o olhar dos visitantes.
A obra foi ganhando tanta repercussão nacional e internacional que porcelanas de Portugal, Itália, França e até do Japão foram doadas ao artista e estão nas paredes da residência, que era só para descanso e se tornou em obra de arte que, infelizmente, atualmente agoniza para tentar escapar da morte.

Resposta
A reportagem entrou em contato com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura na finalidade de buscar respostas para inúmeras perguntas levantadas pela população. Mas, até o fechamento desta edição, nenhuma posição chegou à redação do Folha. O inverso do que fez o historiador Adebal Andrade Junior, integrante da Diretoria de Memória e Patrimônio Cultural de Contagem, da Casa da Cultura, além de ser autor do artigo"Quando cacos são patrimônios: o processo de tombamento da Casa dos Cacos de Louça", pelo 2º Simpósio de Ciências Sociais- Subalternidades,  Trânsito e Cenários da Universidade Federal de Goiás.

Em seu artigo, Adebal defende que a Casa de Cacos é um patrimônio que preserva de forma importante a construção da história da cidade. E, segundo ele, que acompanha a situação da Casa, há algum tempo a Prefeitura elaborou um estudo preliminar de restauração e que, agora, o procedimento é que este estudo passe por uma avaliação dos órgãos responsáveis do município, para depois ser feita a contratação de uma empresa especializada para a elaboração de um projeto de restauro.

Ainda de acordo com Adebal, o passo seguinte seria o projeto passar por mais uma avaliação, para então ser iniciada a recuperação da Casa. "A dificuldade encontrada é que a Casa de Cacos é um modelo que precisa ter um projeto bem elaborado para não descaracterizá-la, pelo fato de ser uma arquitetura espontânea, feita particular e intuitivamente, pelo senhor Carlos. Mas, pode ter certeza, que o esforço é grande para que a recuperação da Casa seja feita", complementou o historiador.
 

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